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O JUÍZO FINAL [ PARTE 5 ]

V – OS FUNDAMENTOS DO JULGAMENTO FINAL
Todo julgamento tem de se basear em normas e regras que sejam claras e conhecidas de todos. Ninguém pode ser julgado sem que haja uma lei que sirva de critério e de base para este julgamento.

É por isso que, na ciência jurídica, é sempre dito que a função de julgar nada mais é que “a atuação da vontade concreta da lei”, ou seja, a aplicação do que diz a lei para um caso concreto.

Os julgamentos divinos não fogem a este princípio, até porque este princípio adotado e acolhido pelos juristas é decorrência do que o próprio Deus estabeleceu para o homem, ao criá-lo e ao mundo onde ele vive.

O primeiro fundamento dos julgamentos divinos é a própria racionalidade humana, ou seja, a capacidade de entendimento de que o homem foi dotado por Deus, para ter consciência de si mesmo e do próprio Deus. Deus fez o homem um ser pensante, um ser racional precisamente para que ele pudesse saber que é um ser, que, enquanto ser, ocupa uma posição de inferioridade em relação a Deus e de superioridade em relação à criação na Terra, bem como que tem o poder de escolher entre obedecer a este Deus ou não. Consciência de si, de Deus, de sua posição na ordem universal e de sua liberdade, são os pontos da racionalidade humana e que são a primeira base para os julgamentos divinos.

Esta racionalidade e consciência geram uma liberdade que, como já vimos supra, traduz-se numa responsabilidade. Por mais que os homens possam ludibriar e enganar os seus semelhantes, conseguindo escapar aos julgamentos humanos, seja porque os homens não conseguiram obter provas suficientes para responsabilizar alguém, seja porque não houve interesse ou empenho dos julgadores em promover a responsabilização, o fato é que sempre o réu culpado sabe que está errado e que agiu contra a lei. 

Assim, ainda que seja absolvido, isto é, não seja responsabilizado num julgamento humano, o réu sabe muito bem que a solução correta e justa não seria esta, mas a sua condenação. Por quê? Porque a consciência recebida de Deus lhe mostra que ele está errado e que deveria ser condenado.

Vemos, portanto, o primeiro fundamento dos julgamentos divinos: o homem é livre e consciente e, portanto, responsável pelos seus atos. Sabe Deus, pois foi quem criou todos os homens, que não há um homem igual a outro em toda a história da humanidade. O Senhor conhece a estrutura de cada um (Sl.103:14) e, por isso, determinou que os julgamentos divinos sejam individuais. 

É importante observar que todos os julgamentos divinos são individuais: tribunal de Cristo – cada crente será julgado pelas suas obras; julgamento das nações – cada indivíduo de Israel e das nações gentílicas será julgado pelas obras apresentadas durante o período da Grande Tribulação para que se veja se é, ou não, digno de ingressar no milênio; julgamento final – cada um  dos seres humanos não incluídos nos julgamentos anteriores será julgado segundo as suas obras. Os julgamentos são individuais porque Deus avaliará o grau de consciência e de responsabilidade de cada um, a fim de que os julgamentos sejam justos.

Mas, além da consciência e da responsabilidade de cada indivíduo, Deus, também, usará a Sua revelação como fundamento para o julgamento. Vimos que todo julgamento tem de se basear em uma lei e, além da consciência e responsabilidade, que são regras, normas inseridas por Deus em cada ser humano, há, também, a revelação do próprio Deus ao homem ao longo de toda a história da humanidade.

Deus, conhecendo a fragilidade do homem, mormente depois que caiu e se apartou do seu Criador, sempre teve interesse e desejo de Se revelar ao homem, fazendo-o seja pela natureza, seja por Israel, seja pela Sua Palavra, seja pelo Seu Filho (em carne, pela Igreja, pelos pregadores da Grande Tribulação, pelos anjos do evangelho eterno). 

Deus não quis deixar apenas sob um aspecto subjetivo, interno, pessoal de cada indivíduo o critério para alicerçar uma responsabilização, um julgamento, mas, por meio de elementos puramente objetivos, externos a cada ser humano, mostrou-Se ao homem, a fim de que ele pudesse conhecer qual era o caráter de Deus e ao que deveria se assemelhar. Esta revelação divina, portanto, será o critério e um dos fundamentos dos julgamentos divinos.

Aqui, também, se explica porque cada julgamento será individual. Deus irá tratar a cada indivíduo conforme a revelação divina que teve. É, aliás, este o sentido da expressão de Rm.2:12, onde Paulo diz que os que sem lei pecaram, sem lei serão julgados e os que conheceram a lei, pela lei serão julgados. 


Nesta passagem, Paulo nos mostra, com a clareza que lhe era peculiar, que Deus levará em conta, no julgamento, o tipo de revelação que a pessoa teve de Deus, a fim de que, segundo esta revelação, seja verificado se houve, ou não, observância e obediência ao Senhor. Lembremos, desde já, embora venhamos a tratar do assunto amiúde mais abaixo, que nenhum homem poderá se desculpar e dizer que não teve como perceber a revelação de Deus a si (cfr. Rm.1:18-20).

Mas, um julgamento justo não se baseia apenas nas normas e regras abstratas, mas, como deve ser a aplicação da lei ao caso concreto, é preciso que se apresentem, também, fatos, provas que demonstrem ter ocorrido a observância, ou não, da lei. 


É por isso que os julgamentos divinos não têm apenas a consciência, a responsabilidade do indivíduo que está sendo julgado ou a revelação divina a este indivíduo, mas também os registros de tudo aquilo que ele fez enquanto existiu sobre a face da Terra. É este o sentido dos “livros” mencionados em Ap.20:12 “in fine”. 

Não pensemos que haja um cartório no céu, com livros e mais livros, como os nossos cartórios judiciais e extrajudiciais, onde fisicamente haja registros das obras de cada indivíduo que já viveu sobre a face da Terra. Trata-se, evidentemente, de uma figura, de um símbolo, mas, sem dúvida alguma, estão registrados diante de Deus todos os atos praticados por todos os indivíduos e estes atos serão apresentados no momento do julgamento, diante de cada réu. O justo juiz mostrará a justiça julgando sempre com provas.

Abrimos aqui um parêntese no assunto da lição apenas para lembrar a todos nós que, sendo servos do Senhor e tendo de ser a Sua imagem e semelhança, de modo algum podemos proceder de forma diversa da que procede o nosso Deus. 

Se Deus que é onisciente, ou seja, sabe de todas as coisas; onipresente, ou seja, está em todos os lugares ao mesmo tempo e onipotente, pode todas as coisas, não dispensa a existência de provas para julgar alguém, por que eu e você, muitas vezes, aceitamos e julgamos as pessoas sem que tenhamos qualquer prova ou o menor indício? 

Por que confiar no “ouvir dizer” ou nas aparências, muitas vezes vindas de meios de comunicação altamente comprometidos e sem qualquer compromisso com Deus e, portanto, com a verdade? Pensemos nisso e mudemos nosso comportamento o quanto antes, porque, se continuarmos a agir erradamente, isto, sim, estará devidamente provado naquele dia…

Outro fundamento dos julgamentos divinos e, portanto, do julgamento final é o direito de defesa. Todos os julgamentos somente se justificam por causa do direito de defesa. Deus irá julgar um por um dos indivíduos que existiram sobre a face da Terra (e isto literalmente, se considerarmos os três julgamentos), única e exclusivamente para dar oportunidade aos julgados para se manifestar e ter acesso às provas e à aplicação das normas ao caso concreto. 

Não fosse este o motivo, o Senhor teria lançado os ímpios, de imediato, no lago de fogo e de enxofre, assim como fez com o Anticristo e o Falso Profeta, que assim serão tratados porque desafiaram abertamente a Deus e se deixaram dominar pelo diabo, num nível de rebeldia igual ao de Satanás, de plena consciência e rejeição ao senhorio divino. 

Com relação aos outros homens, porém, Deus lhes mostrará a Sua justiça, permitindo-lhes que se manifestem, assim como fez com os nossos primeiros pais (Gn.3:8-11).  Tanto assim é que vemos os julgados, mesmo condenados, manifestando-se no julgamento final, como, por exemplo, em Mt.7:22 e Mt.25:44. Teremos um efetivo direito de defesa, inclusive com direito ao uso de palavra. Que Deus justo é o nosso Deus!

Não é por outro motivo que os juristas costumam chamar o direito de defesa de sagrado, já que o primeiro registro de sua criação e exercício remonta ao próprio Deus, neste episódio do Jardim do Éden. Aqui, aliás, abrimos um outro parêntese: se Deus que é Deus dá a cada ser humano na face da Terra a oportunidade de defesa, por que nós, muitas vezes, queremos suprimi-lo de nosso semelhante? Seríamos mais justos do que o Senhor, do que o Juiz de toda a Terra?

Outro fundamento dos julgamentos divinos é a sua publicidade. Todos os julgamentos divinos são públicos, são feitos à vista de todos os envolvidos. O tribunal de Cristo é feito diante de toda a Igreja arrebatada; o julgamento das nações e o julgamento final são vistos diante de tronos, numa típica cerimônia pública, onde todos os homens de todos os tempos estarão reunidos para se submeter ao Senhor dos senhores e Rei dos reis. Tanto assim é que Paulo afirma que, nesta oportunidade, ocorrerá a suprema exaltação de Cristo e todo o joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor (Fp.2:9-11).

Se Deus faz as coisas publicamente, à vista de todos, por que muitos insistem, inclusive na Igreja, que é o corpo de Cristo, em promover julgamentos às ocultas, às escondidas? Não devemos agir assim, até porque, se os membros da igreja local não veem, saibam todos que tudo o que se passa é visto pelo Senhor e, como diz o escritor aos Hebreus, “não há criatura alguma encoberta diante d’Ele, antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos d’Aquele com quem temos de tratar.”(Hb.9:13). 

Abramos nossos olhos e sigamos a publicidade demonstrada pelo caráter justo do Senhor, porque “…nada há encoberto que não haja de revelar-se, nem oculto, que não haja de saber-se” (Mt.10:26b), a fim de que não recebamos o mesmo juízo lançado sobre Davi, a saber: “porque tu o fizeste em oculto, mas eu farei este negócio perante todo o Israel e perante o sol” (II Sm.12:12).

Logicamente que, quando dizemos que os julgamentos nossos devem ser públicos, a exemplo dos julgamentos divinos, devemos manter a mesma sobriedade e dignidade que o Senhor manterá nestes julgamentos. Em momento algum, mesmo quando vemos o Senhor condenando os homens, vemo-l’O humilhando ou retirando a dignidade humana de qualquer julgado. A própria sentença de condenação do Senhor não tem sequer uma palavra de injúria ou de ofensa aos condenados. Diz o Senhor tão somente o necessário, sem humilhar quem quer que seja. 

“Nunca vos conheci, apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt.7:23). “Apartai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos, porque tive fome, e não Me destes de comer; tive sede, e não Me destes de beber; sendo estrangeiro, não Me recolhestes; estando nu, não Me vestistes; e enfermo e na prisão, não Me visitastes.” (Mt.25:41b-43). Qual diferente é o Senhor de certos indivíduos que, por se acharem autoridades eclesiásticas, sob a desculpa da publicidade, ao invés de darem a sentença, preferem ofender e injuriar as pessoas!

Por fim, outro fundamento dos julgamentos divinos é a imparcialidade e retidão do julgador. Dizem as leis humanas que um julgamento,
 para que seja justo, deve ser exercido por um juiz que seja imparcial, ou seja, não tenha qualquer inclinação para uma parte ou outra, como também que seja um juiz correto, uma pessoa de que tenha ilibada reputação. Nestes dois requisitos, vemos que os julgamentos divinos trazem o que de mais excelente há nesta matéria. 

Deus é imparcial, é a própria imparcialidade personificada, pois, para Ele, não há acepção de pessoas (Dt.10:17; Cl.3:25). Deus estará tratando a todos os homens igualmente, pois o julgamento final, inclusive, é para que prevaleça esta regra da imparcialidade, pois, com este episódio, todos os indivíduos terão tido a oportunidade de defesa antes de terem selado o seu destino eterno. 

Com respeito à reputação do Senhor, Ele é santo (Lv.11:45; I Pe.1:15) e terá demonstrado todo o Seu poder e fidelidade ao longo da história humana. Por isso, até, o julgamento final se realizará no final da história, para que o Senhor demonstre, cabalmente, a Sua dignidade para julgar os vivos e os mortos.

Vemos, portanto, que os julgamentos divinos têm como fundamentos os princípios mais límpidos e seguros de toda a justiça, possuindo todos os requisitos que, há séculos, os próprios homens tentam, sem êxito, impor aos seus próprios julgamentos. Indubitavelmente, todos aqueles que se submeterem ao julgamento final estarão sendo justa e retamente julgados.

Continua...

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